outubro 25, 2016

(Re)adaptações


Quando eu me mudei de Viamão para Palmares do Sul, o misto de expectativa e receio se chocou de tal forma que, conforme o dia da mudança ia chegando, eu tentava evitar pensar nisso. Eu morava em Viamão que é uma cidade metropolitana de Porto Alegre, atrasada no âmbito de crescimento e sem grandes chances de progresso. A cidade para a qual estava me mudando era ainda mais pacata, com menos chances de desenvolvimento e tão pequena a ponto de todos conhecerem uns aos outros. 
O motivo da mudança, segundo minha mãe, era a busca por novos ares, tentar uma vida nova, um recomeço. Nos mudamos, e no início eu só queria voltar para perto dos meus amigos, da minha rua movimentada, do meu chão esburacado, das coisas que eu estava habituada desde sempre. Não por que eu fui rejeitada na nova cidade, e sim pelo costume. De fato, eu fui tão acolhida pelas pessoas da nova cidade que aquele processo de adaptação foi melhor do que eu esperava. 
À medida que eu ia conhecendo as pessoas, o estilo de vida pacato, a segurança que a cidade proporcionava e os pequenos prazeres como andar de bicicleta despreocupadamente ou caminhar às onze da noite sem medo de ser assaltada, eu percebia que não gostava da minha cidade anterior. Não gostava da rua movimentada ou do chão esburacado, eu estava acostumada a essas coisas. 
E quando percebemos que gostamos verdadeiramente de alguma coisa ou estamos apenas acostumados a ela? É como aquele travesseiro que a gente tem desde os dois anos de idade, encardido e flácido, mas que não conseguimos nos desvencilhar. Como aquele programa de tevê que passa aos domingos e não entendemos o motivo pelo qual estamos assistindo. Todo processo de mudança requer adaptação. 
Seja essa mudança pequena como substituir o presunto pela mortadela, seja grande, como trocar de emprego ou mudar de cidade. Essas mudanças requerem persistência da nossa parte porque estamos acostumados ao que nos rodeia. Estamos acostumados com nossas vidas agitadas ou tranquilas e quando passamos por alguma mudança é como se estivéssemos a cem quilômetros por hora e de repente reduzíssemos para cinquenta em uma curva para que não haja qualquer probabilidade de batermos. A curva é a mudança. 
Mesmo para aquela pessoa que adora mudança é difícil acostumar-se a uma nova situação, pois todos nós precisamos de um tempo para assimilar um acontecimento e incluí-lo em nossa vida. Minha mãe é uma dessas pessoas que adoram mudanças, e dois anos depois ela resolveu que estava na hora de voltarmos para a região metropolitana. Para mim, habituada a tudo que se referisse à minha cidadezinha pequena significava apenas voltar para o trânsito conturbado, a falta de segurança e abdicar dos laços que criei naquele período. E quando eu retornei para Viamão, tudo era estranho no começo. Atravessar a rua requeria paciência, pois não havia trânsito em Palmares; pegar o ônibus era uma tarefa cansativa porque eu estava desacostumada com a falta de educação dos passageiros já que em Palmares não havia ônibus. 
O irônico é que enquanto eu passava por esse processo de readaptação notei que pude voltar para perto dos amigos que eu havia passado a visitar uma vez a cada dois meses, notei também que há cursos de inglês em Viamão, restaurantes japoneses, cinema, além de ser perto de Porto Alegre. Tudo isso não havia na minha outra cidade e foram esses pontos que me fizeram enxergar a cidade para o qual estava voltando de uma maneira mais positiva que antes. Finalmente eu estava a cem quilômetros por hora.


Texto relato de uma emoção forte, 2016.

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