dezembro 12, 2016

Acordem, dorminhocos!

Esses dias eu estava conversando com o meu irmão e ele me solta a seguinte frase: “Tu só não é mais preguiçosa que o bicho-preguiça”. E eu achei engraçado naquele momento, sem levar a sério aquela leve ofensa por trás de uma ingênua brincadeira. 
Eu realmente gosto de dormir. Sou o tipo de pessoa que precisa de muitas horas de sono e mesmo quando acordo, permaneço com sono e reclamo até dormir novamente. Eu compreendo o mal em ser dorminhoca quando perco o horário da aula porque não ouvi ou ignorei o alarme do despertador ou quando dou pretextos aos meus amigos por não ficar mais tempo nos nossos encontros. No entanto, isso não é desinteresse ou desânimo – é apenas sono. 
Quando essas situações acontecem, eu apenas aceno com a cabeça as acusações de irresponsável que costumam vir dos meus pais e a decepção dos meus amigos que, por conta desse meu cansaço constante, deixam de me convidar para eventos que costumam pernoitar. Eu aceno com a cabeça porque eu sei que é verdade. Eu assumo a culpa por ser uma dorminhoca congênita, mas o que eu não entendo é por que isso afeta tanto as pessoas do meu convívio a ponto de elas me estereotiparem e qualificarem essa característica como a mais predominante em mim. 
Do meu grupo de amigos quase todos fumam com exceção a mim, mas e se eu ficasse desapontada todas as vezes que algum deles resolvesse acender um cigarro? Eu detesto cigarros, talvez numa intensidade maior do que eles detestem quando eu resolvo ir embora cedo, afinal cigarro é mais prejudicial à saúde do que dormir demais, mas, de qualquer forma, seria desnecessário relembrá-los ou dispensá-los por conta dessa característica que me desagrada. É irrelevante julgar alguém por uma particularidade a qual tu acredita ser condenável. 
Não adianta classificar alguém no teu padrão, pois as pessoas, de maneira geral, não foram feitas para atender ao que tu assumes como correto ou não. Elas têm ataques de fúria quando o vizinho começa a cortar grama às oito horas da manhã de um domingo e por isso são chamadas de pavio curto, elas procuram ser solícitas e amigas para com as outras pessoas, e por isso, muitas vezes, são julgadas como falsas. De fato, a gente sempre vai se incomodar com uma característica que outra em alguma pessoa, seja pelo cheiro do cigarro que te desagrada ou por achar que a amiga não está gostando de passar um tempo contigo só porque ela prefere ir embora mais cedo. O problema não está na pessoa que possui um traço inconveniente. Está na nossa maneira de tolerar e refletir se aquilo é suficiente para criarmos qualquer tipo de situação desagradável que interfira na nossa relação com determinada pessoa. O problema é nosso, não delas. 

Texto sobre apresentação pessoal, 2016.

dezembro 02, 2016

Dubladora do Darth Vader


Na metade do ano passado, eu tive uma gripe muito forte. A partir da gripe, minha garganta ficou tão inflamada que isso me deixou sem falar por quase duas semanas. 

Eu não sou uma pessoa que fala muito, e mesmo quando estou num grupo de amigos rodeada de pessoas queridas eu prefiro estar no meu cantinho a dar alguma opinião sobre qualquer coisa, portanto, acreditei que seria fácil passar por essa etapa da gripe. No entanto, a partir do segundo ou terceiro dia eu me descobri mais conversadora que o habitual. 
Mesmo com a rouquidão e a dificuldade em tentar me comunicar por meio de uma espécie de sussurro alto, eu tentava a todo custo falar sobre qualquer bobagem que me ocorresse, fosse chamar o meu melhor amigo para debatermos um acontecimento de duas semanas atrás ou conversar despreocupadamente com a minha mãe sobre a falta de criatividade das atuais propagandas. O fato de eu não poder falar e saber disso trouxe-me um desafio, uma situação a ser vencida. O proibido, naquele momento, me foi muito atrativo. 
O misto de desafio e curiosidade é o que nos impulsiona a desejar aquilo que não podemos ter no momento. No meu caso, como mencionei, foi o ato de falar em um momento que eu deveria me resguardar. Mas há quem, por exemplo, prefere nutrir sentimentos pela namorada do melhor amigo por aquilo proporcionar uma linha da qual não pode ser ultrapassada ou quem não abre mão do sorvete de flocos ou o mousse de chocolate mesmo sabendo que tem intolerância à lactose. 
Todos sabemos onde termina o limite para a maioria das situações que passamos durante a vida, esse quebra do limite é o que nos atrai, seja por instinto ou pelo simples prazer de ultrapassar aquela linha que nos foi orientada. No entanto, essas linhas quando excedidas trazem consequências: No caso da pessoa que se apaixona pela namorada do melhor amigo, a consequência é o sofrimento; no caso da pessoa intolerante à lactose, uma alta propensão a dores de barriga. 
A mim, me custou o dobro de tempo para me recuperar de uma inflamação de garganta normal, mas eu também aproveitei para me impor mais. Adquiri, por um breve momento, o poder de opinar sobre o que quer que me perguntassem pelo anseio de não poder falar. Naquele período, eu acredito que atingi a cota de conversação por um ano inteiro.


Texto sobre aprendizado, 2016.

outubro 25, 2016

(Re)adaptações


Quando eu me mudei de Viamão para Palmares do Sul, o misto de expectativa e receio se chocou de tal forma que, conforme o dia da mudança ia chegando, eu tentava evitar pensar nisso. Eu morava em Viamão que é uma cidade metropolitana de Porto Alegre, atrasada no âmbito de crescimento e sem grandes chances de progresso. A cidade para a qual estava me mudando era ainda mais pacata, com menos chances de desenvolvimento e tão pequena a ponto de todos conhecerem uns aos outros. 
O motivo da mudança, segundo minha mãe, era a busca por novos ares, tentar uma vida nova, um recomeço. Nos mudamos, e no início eu só queria voltar para perto dos meus amigos, da minha rua movimentada, do meu chão esburacado, das coisas que eu estava habituada desde sempre. Não por que eu fui rejeitada na nova cidade, e sim pelo costume. De fato, eu fui tão acolhida pelas pessoas da nova cidade que aquele processo de adaptação foi melhor do que eu esperava. 
À medida que eu ia conhecendo as pessoas, o estilo de vida pacato, a segurança que a cidade proporcionava e os pequenos prazeres como andar de bicicleta despreocupadamente ou caminhar às onze da noite sem medo de ser assaltada, eu percebia que não gostava da minha cidade anterior. Não gostava da rua movimentada ou do chão esburacado, eu estava acostumada a essas coisas. 
E quando percebemos que gostamos verdadeiramente de alguma coisa ou estamos apenas acostumados a ela? É como aquele travesseiro que a gente tem desde os dois anos de idade, encardido e flácido, mas que não conseguimos nos desvencilhar. Como aquele programa de tevê que passa aos domingos e não entendemos o motivo pelo qual estamos assistindo. Todo processo de mudança requer adaptação. 
Seja essa mudança pequena como substituir o presunto pela mortadela, seja grande, como trocar de emprego ou mudar de cidade. Essas mudanças requerem persistência da nossa parte porque estamos acostumados ao que nos rodeia. Estamos acostumados com nossas vidas agitadas ou tranquilas e quando passamos por alguma mudança é como se estivéssemos a cem quilômetros por hora e de repente reduzíssemos para cinquenta em uma curva para que não haja qualquer probabilidade de batermos. A curva é a mudança. 
Mesmo para aquela pessoa que adora mudança é difícil acostumar-se a uma nova situação, pois todos nós precisamos de um tempo para assimilar um acontecimento e incluí-lo em nossa vida. Minha mãe é uma dessas pessoas que adoram mudanças, e dois anos depois ela resolveu que estava na hora de voltarmos para a região metropolitana. Para mim, habituada a tudo que se referisse à minha cidadezinha pequena significava apenas voltar para o trânsito conturbado, a falta de segurança e abdicar dos laços que criei naquele período. E quando eu retornei para Viamão, tudo era estranho no começo. Atravessar a rua requeria paciência, pois não havia trânsito em Palmares; pegar o ônibus era uma tarefa cansativa porque eu estava desacostumada com a falta de educação dos passageiros já que em Palmares não havia ônibus. 
O irônico é que enquanto eu passava por esse processo de readaptação notei que pude voltar para perto dos amigos que eu havia passado a visitar uma vez a cada dois meses, notei também que há cursos de inglês em Viamão, restaurantes japoneses, cinema, além de ser perto de Porto Alegre. Tudo isso não havia na minha outra cidade e foram esses pontos que me fizeram enxergar a cidade para o qual estava voltando de uma maneira mais positiva que antes. Finalmente eu estava a cem quilômetros por hora.


Texto relato de uma emoção forte, 2016.

Empatia textual


Há pouco mais de um mês, dei início a um novo semestre na universidade. Dentre todas as disciplinas obrigatórias uma me chamou a atenção - Leitura e Produção de Textos em Língua Portuguesa I. A disciplina é uma introdução para a próxima que será focada em ensaios e... todo o blabláblá de um estudante de Letras. No entanto, ela me chamou a atenção por outras razões.

O exigido é que seja escrito um texto toda semana (oh, lord) em que os leitores possam se identificar, refletir e discutir a essência que o autor tentou apresentar. É escrever um texto sobre si, mas sempre pensando em como isso atingirá outras pessoas.


A minha maior dificuldade foi parar de escrever para mim mesma, pois nós estamos acostumados a escrever e falar de nós mesmos. Estamos habituados a acreditar que as nossas dores e problemas são sempre piores as dos outros e essa cadeira faz com que tentemos universalizar as nossas dores e problemas com as de outras pessoas para que, ao menos, consigamos desenvolver uma discussão a partir disso. 

Por que eu estou dizendo isso tudo? Porque eu aprendi que não devemos escrever para nós; portanto, toda semana (mais ou menos, rs) publicarei um dos meus textos para a disciplina como uma maneira de incentivá-los a refletir, discutir, escrever, mas acima de tudo enxergar que não somos o centro de tudo e devemos ouvir o as pessoas têm a dizer. 

Observações consideráveis:
1. O marcador de texto irá se chamar bronquinhas, pois essa é a palavra que minha professora, Magali Endruweit, gosta de usar para referir-se aos assuntos que cada aluno costuma retratar nos textos.
2. Os textos que serão publicados não são divinos nem magníficos, são textos que já foram corrigidos e estão "aptos" pelo que é exigido pela cadeira.


Allons-y!