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abril 08, 2013

De simplicidade em simplicidade a gente enche o prato

Adoro praças.
Não shoppings lotados de pessoas preocupadas com o seu próprio egoísmo e a impressionar os que estão a sua volta, mas praças: aquelas que aconchegam os idosos que só estão por uma boa conversa, que abrigam os enamorados conforme a estação e divertem as crianças que precisam exercitar ser criança.

agosto 31, 2012

Poça d'agua

Quarta-feira, hora melancólica das cinco e meia quando chove. Choveu úmido e frio na tarde antes sufocante de novembro. Ela caminhava na direção do metrô, os sapatos molhados. (...) Sua respiração estava ofegante, seus sentidos traiam-na e seu pensamento estava completamente absorto, destacando apenas uma frase: − Preciso voltar para casa.

Entrou no trem.
E mesmo que estivesse há poucos quilômetros de casa, não poderia deixar de sentir uma enorme culpa em seu peito. Imagens apareciam vez ou outra em sua mente e tentava lembrar do que a levou fugir de casa, mas nada conseguiu. Como se uma página tivesse sido bruscamente rasgada de um de seus livros.
O trem parou por volta das sete e quinze. A rodoviária continuava lotada, apenas podia-se ouvir o farfalhar da garoa fina que agora caia sobre seus ombros. Seguiu por mais algumas ruas, pisando em poças, tropeçando em pedras; ela nunca fora um exemplo de elegância e tampouco se importava com o que pensavam sobre ela.
Ao chegar em casa, notou um completo silêncio como se ninguém estivesse esperando a sua chegada. Subindo as escadas, uma sensação de déja-vu a tomou, sentiu-se incomodada mas continuou a subir. Ao abrir a porta, ouviu seus passos ressoando sobre o piso de madeira, olhou ao redor e percebeu que tudo estava normal a não ser por um pequeno fragmento de papel amassado perto da janela.

"Querida mãe, querido pai, não sei a que ponto cheguei mas estava precisando de um tempo só para mim. Há dias sentia-me vazia, vocês sempre foram absolutamente maravilhosos comigo, na verdade, o problema não são vocês, e sim, eu. Espero que um dia possam me perdoar pelo que estou prestes a fazer. Com amor, B."

Ao ler o bilhete, notou luzes vermelhas e ao lançar os seus olhos sobre o parapeito da janela viu seu corpo estirado no jardim enquanto pessoas que estavam ao redor tentavam reanimá-la. Assim, fechou completamente os olhos e suspirou longamente, pelo que seria, o seu último suspiro.

junho 24, 2012

Em eterna melodia

Canto como se cantasse a cantoria dos pássaros numa manhã
Pássaros que vivem passareando por entre as árvores
Árvores que dançam conforme a melodia do vento
Vento que vem e que vai, invisível por entre as cortinas da minha janela
Janela por onde eu canto como se cantasse a cantoria dos pássaros numa manhã. 

maio 31, 2012

Verso do inverso

Me encontrou não sei aonde
Permaneceu não sei como
E se foi não sei porquê.


Inspirado em Soneto 03, Camões.

fevereiro 09, 2012

Assopre as velinhas e faça um pedido

Dezesseis anos. 
Incrível como essas palavras soam em meus ouvidos como se significassem apenas responsabilidade, estudo em dobro e mais responsabilidade. Com dez anos de idade, eu não conseguiria imaginar a minha vida da forma como ela está hoje: totalmente bagunçada e sem saber que rumo tomar, sem saber como dar a partida - o ponto inicial.
Me sinto inútil entre os que estão a minha volta como se nada do que eu fizesse fosse o bastante, e então sinto-me apática, ouvindo todos ao mesmo tempo, aconselhando-os, mostrando-lhes o caminho sendo que eu mesma não sei que rumo tomar. Está cada vez mais difícil ser eu mesma no âmbito social. Abraços, beijinhos e fofocas não me apetecem, falar sobre revistas, artistas super conhecidos e novelas também não o são, por isso prefiro estar no meu cantinho sozinha a fingir, interagir, me socializar. Acho engraçado quando dizem que é a idade e dão a desculpa de que é sempre assim mesmo. Creio que nunca foi tão difícil procurar por uma resposta antes, pois antes elas estavam estampadas nos livros, agora, estão escondidas em mim.
"And even when you know the way it's gonna blow
It's hard to get around the wind."
(Aliás, feliz aniversário pra mim).

fevereiro 06, 2012

O café, a visita e o diálogo

− Quer um cafezinho, Sra. Bunket? Foi o que a empregada Lisie perguntou enquanto removia da escrivaninha os livros que a patroa lera à tarde.
− Estou bem, Lisie. Vá. Não precisarei dos seus cuidados até amanhã. Respondeu-lhe a Sra. Bunket no seu ar rompante, mas sem ter certeza de que havia feito uma boa escolha.
Lisie fechou as portas do escritório sem saber que aquela seria a última vez em que veria a Sra. Bunket, aquela mulher generosa a quem sempre será grata por ter lhe dado um lar depois do incidente que matara sua família.
Vera Bunket era dona de uma herança que lhe foi concebida por seu falecido marido e ultrapassava cinquenta milhões de libras. Não haviam tido filhos e não restara nem um parente próximo a quem mantivesse contato, portanto, sua única companhia naquela mansão de cinquenta e dois cômodos era Lisie, sua empregada e única amiga. Vera tinha quarenta e oito anos de uma vida solitária e sofria de uma grave doença que evitava contar para ela. Naquele dia, sentia fortes dores e temia que a morte estivesse por perto.
− Posso dar um jeito nisso.
Assustada, Vera caiu em si de que estava divagando em lembranças profundas e virou-se para olhar a figura que havia entrado ali sem provocar som algum.
− Desculpe. Lisie, minha empregada não mencionou que eu receberia visita a esta tarde. A que devo a honra, senhor?
− Posso dar um jeito na sua dor. A figura, agora sentada em uma poltrona no canto do escritório, continuava a olhar para baixo, com as pernas e dedos cruzados como se estivesse pensando em alguma coisa. Vera não entendeu no momento, mas ali na sua frente estava alguém que realmente poderia dar um jeito em tudo.
Por instinto, Vera recuou para longe do sujeito do qual ainda não conseguia definir se era homem ou mulher e avançava agora para perto do telefone onde poderia chamar a polícia, caso fosse necessário.
− Não estou entendendo e presumo que tenha um motivo muito urgente para entrar em minha casa desta forma.
− Não tente usar o telefone. Você sabe quem eu sou.
Vera parou trêmula e sentindo-se frustrada. Apoiou a mão na estante ao seu lado, mantendo os olhos firmes em quem quer que estivesse do outro lado do escritório. Tentava desvendar aquela voz desigual, indistinta e que parecia estar vindo direto de sua mente. Para ganhar tempo e conseguir algumas respostas, Vera prosseguiu:
− Vá direto ao ponto, não tenho todo o tempo disponível e não pretendo o ter, quanto mais cedo discutirmos seu propósito aqui melhor será para ambos.
− Tens razão, a senhora não tem tempo algum e para alguém que os médicos disseram restar menos de três semanas de vida, a senhora não se deixa abater.
− Está aqui para me assassinar? Se apoderar de minha fortuna?
− Não seja tola, tente apenas associar a minha presença com seu infortúnio. Eu sou a Morte.
Vera deixou todo seu peso cair na cadeira enquanto tentava separar a imaginação da realidade. Estaria delirando? Algo em seus remédios causou esse efeito colateral? Por que não podia enxergar o rosto daquele sujeito sentado rígido a poucos metros de distância dela? Por que estava acreditando nele? Por que queria acreditar? E por que não acreditar já que não havia aparentemente nenhum interesse em sua fortuna, mas apenas nela mesma. Na Vera, e não na Sra. Bunket.
Ela substituiu o medo por nostalgia. Lembrou de seu primeiro encontro, recebendo galanteios de seu pretendente, e de repente, a imagem muda, o primeiro amor, o primeiro filho, as dificuldades, o divórcio, o sorriso do filho que teria de cuidar sozinha e sua morte precoce - toda uma vida que ela desperdiçou por sua ganância de se casar com um homem rico.
− Então isso é tudo? Planos, perspectivas, arrependimentos, tudo vem à tona? Passei minha vida a me repreender pelos meus erros, tive que escolher entre o certo e o errado, sendo que somos nós quem decidimos entre o certo e errado para nós e em todas as atitudes que tive de tomar parecia ser certo para mim, até descobrir que tentar acertar sempre... é errado.
− Apenas venha, minha querida. Disse a morte levantando-se e estendendo-lhe a mão. − Para um lugar sem qualquer sofrimento ou arrependimento.
− Espero que me sirvam café neste lugar. Disse Vera, enxugando as lágrimas enquanto tentava se acostumar com a ideia. Depois dessas palavras, ela segurou-lhe a mão e sentiu-se em paz pela primeira vez em sua vida; e foram juntas, ela e a Morte para um lugar que todos desconhecemos, por enquanto.

janeiro 21, 2012

Terra das Meias Perdidas

"Pintada de vermelho, lá estava ela. Tão linda e sonhada, minha ilha imaginada." 
Sua aparição é um enigma para todos nós, por isso vou-lhes contar um pouco deste lugar. 
Logo que adentrarem na ilha com os pés cheirando a chulé, irão ver claramente dragões fluorescentes brilhando à luz de um balão em forma de lua. E em cima de vossas cabeças, pássaros nadando − mas cuidado com as pequenas balas de jujuba que soltam em seus ombros − e não irá demorar para que as sereias, assanhadas como elas só, cantem para atraí-los − por isso tragam pedacinhos de pão-de-ontem e não demorem a colocar nos ouvidos.
Moscas mal humoradas caminham tranquilamente à procura de um gigantesco e suculento sapo e, seguindo em frente, pode se ver coelhos rebeldes cuspirem fogo a todos que chegam perto de sua horta − por isso não ousem tocar em seus brigadeiros e beijinhos.
Na floresta preguiçosa, árvores penduradas de cabeça para baixo guardam peixes a voar para longe com suas nadadeiras por conta da arrogância de certas corujas, mas chegando à direta podemos ver um pântano feito de bala de goma que, apesar de parecer ser apetitoso, guarda um terrível monstro chamado Dentista. 
E apesar de todos os defeitos que a ilha possa guardar, ela continua sendo o melhor lugar para se morar. E se quiser procurar por sua meia, o único segredo é i m a g i n a r.
Tire os sapatos.
E, se um dia conseguir entrar na ilha cuide muito bem do seu par de meias, pois há um boato de os morcegos rastejantes acharem-nas suculentas.

janeiro 10, 2012

Desordem emocional

Recomendação: Fake Plastic Trees by Radiohead.

Os rabiscos e rascunhos que fiz há algumas horas atrás não fazem mais sentido. Existe um bloqueio que mais se parece uma parede imaginária em meus pensamentos, modificando de uma hora para a outra minha forma de pensar.
Toda aquela volúpia se desfaz e percebo que o que estou a escrever não se iguala ao que estou sentindo e de que estou sendo tola ao escrevê-lo, pois sei que nada do que eu faça será bom o suficiente para saciar esta incontrolável vontade de me expressar. 
Não há como ajustar meus sentimentos, não há como fazer com que tudo ao meu redor faça sentido, não há como estar no controle a hora que quero e não há como saber se isso faz sentido para mais alguém, mas embora eu não possa fazer nada disso, como Clarice, continuo a escrever.

dezembro 06, 2011

Manual de como se des(apaixonar)

Dor no peito e lágrimas escorrendo pelos olhos.
Estas são apenas duas das várias consequências com quem tenta ser forte, com quem tenta se enganar diante de um problema e iludir-se em meio a devaneios sentimentais. 

Eu sabia das consequências, mas não me importei.
Parece que a única coisa na qual estava esperando era que você pudesse enxergar-me em meio a multidão, mas seus olhos cuidam os de outra pessoa que pode estar mais longe, mas será sempre única. Pensava ser forte o bastante para suportar algo tão pequeno que daqui há uns anos lembrar-me-ei com um tom de risada por ver o quão boba fui. Me mantive no anonimato por muito tempo apenas para ver se mostrarias interesse em revelar o meu íntimo, instigar, atrair, conhecer.

Então a dor ainda está aqui.
E cada vez mais forte, ela se mistura com as borboletas que não fazem o mesmo com meu estômago. Como se hipopótamos estivessem a pisotear fazendo-me parecer ainda pior. As situações e diálogos que criei, agora se parecem borrões desproporcionais fazendo-me ter dores de cabeça. A vergonha tomou conta do meu corpo, sinto-me perdida como se nada do que eu fizesse pudesse acalmar esta dor dilacerante chamada desesperança.

Sempre que a dor me faz uma visita, as palavras voam em meus pensamentos e de alguma forma isso faz com que ela desvaneça um pouco.

novembro 12, 2011

É da tua saudade que sinto falta

s.f. Recordação suave e melancólica de pessoa ausente, local ou coisa distante, que se deseja voltar a ver ou possuir. Nostalgia.
Em teu reflexo me via como tola a implorar pelo aconchego dos seus braços sem nunca mostrar diretamente minha intenção. Gostaria de sentir novamente a sensação de tê-lo junto a mim, embora eu saiba que não sentiria nada. Meu erro foi depositar meus sentimentos em você sabendo que nada receberia em troca a não ser o vazio de suas palavras que sempre iludiram os meus olhos cansados. 
O som da sua risada não faz o mesmo com os meus ouvidos, as borboletas não se alojam mais em meu estômago e meus olhos estão suficientemente descansados para perceberem que suas palavras para mim - de nada valem.

outubro 29, 2011

Pensador, pensa dor, dor que pensa

Não vou me punir
dentro de mim vou ficar 
enquanto aguardo a dor passar.
Essa dor
esse torpor 
ainda assim aguarda pelo seu amor
no coração, quem sabe,
só vaidade, verdade.
Não doce, mas atroce
com uma gota de rancor,
só pode ser mal de amor.

outubro 09, 2011

Palco da vida

A vida nada mais é do que um palco, com atores ocultando em suas máscaras mentiras e verdades, tristezas por trás de sorrisos e onde nunca segredos são revelados. Interpretam tantos papéis e exibem tantos protagonistas que nunca se sabe quem é quem.
O público exasperado aplaude como nenhum outro sem saber se estão aplaudindo a bela atuação ou por eles mesmos saberem se iludir tão bem. Assim como os atores, a plateia sabe interpretar, pois em suas vidas eles são os protagonistas, mas quanto plateia conseguem fazer os papéis de falsos e dramáticos com a maior naturalidade. 
Às vezes, as máscaras caem permitindo que seja revelada a verdade nua e crua e estes guardam pelo resto de suas vidas o fardo de serem eles mesmos. Outras vezes elas retornam a seus rostos e a farsa continua.

agosto 30, 2011

P.S. Eu te amo

Era uma tarde chuvosa quando Cameron chegou no seu pequeno apartamento entusiasmado, pois naquela noite sairia com sua namorada. A chave reserva não estava embaixo do tapete como de costume, e sim, perto do extintor de incêndio, o que significava que Kat estivera ali. Ele abriu a porta e largou sua mochila perto do abajur que estremeu na mesinha de canto. Avistou um bilhete, e no entanto, quem estremecera foi ele. Sua primeira vontade foi de abri-lo, até sentir um leve arrepio pela espinha e, logo após, pelo corpo todo. Suas mãos suavam e seu coração não parava de acelerar a medida que olhava para o tal bilhete. Pensara como um pequeno e talvez insignificante bilhete pudera causar tanto impacto sobre ele.
Após pensar em várias teorias do que poderia estar escrito no bilhete chegou a conclusão de que não deveria ser bom senão Kat teria ligado, então uma tristeza lhe abateu só de pensar que naquele bilhete poderia estar escrito o fim de todo o seu empenho para aquele namoro de quatro anos. 
Não hesitou em ir até a última gaveta do seu bagunçado armário, tirar dali uma caixinha que guardava o fim da sua angústia e acabar com tudo, pois não suportaria ser morto por dentro por algo tão pequeno como um pedaço de papel.
Os vizinhos ouviram o disparo e logo chamaram a polícia que chegando ao local começou a recolher amostras para provar que fora suicídio. Não demorou para que encontrassem um bilhete com a seguinte frase: 
''Amor, vou chegar mais tarde para o nosso encontro, me espere acordado. 
P.S. Eu te amo.''

junho 30, 2011

O constrangimento se encontra na primeira porta à esquerda (Pt II)

O ponteiro do relógio marcou exatamente três da tarde quando me levantei mal humorada depois de ter jurado a mim mesma que não iria dormir o dia inteiro. Havia passado a noite em claro aproveitando minha juventude (lendo e ouvindo música). 
Estava à procura de minhas pantufas que normalmente fugiam de mim e fui até o último cômodo da casa na qual também era o último que esperaria encontrá-las quando me deparei com uma cena que embrulhou meu estômago de vergonha: o almoço estava servido e com ele haviam sorrisos e palavras carinhosas que eu pensava não merecer. 
Quando o relógio marcou quatro e meia, fui lavar a louça e limpar a cozinha para tentar compensar o tempo que perdi. Sem estar satisfeita, tentei arrumar meu quarto, mas vendo que seria uma tentativa frustrada, voltei a me deitar. Devo ter dormido durante duas horas para acordar lamentando a noite que não conseguiria dormir. Ouvi passos no corredor.
Outro gato.
Outro gato soterrado por debaixo do tapete do corredor que desapareceu ao me ver por entre as cortinas. Esta foi a única novidade durante o dia. Deixei o resto virar uma rotina.
Depois de muito luta para encontrar o que fazer, simplesmente comecei a cantar: ''In the town where I was born lived a man who sailed to sea and he told us of his life in the land of submarines'' e ao ver que não tinha o que fazer, voltei a deitar.
Quando dei por mim mesma pensando na vida, já eram quatro e quinze da manhã. Sem notar, peguei no sono e fui acordada às onze da manhã, pois já estava atrasada para a escola. 

Desculpem-me, queria poder contar algo novo mas minha vida é muito monótona para isso. (Pt I)

maio 15, 2011

Não há nada com o que se impressionar

Um dia o gelo sempre derrete. Por mais que tentemos esconder um cordeirinho na pele de um lobo selvagem, mais cedo ou mais tarde esse cordeirinho irá aparecer.

E lá estava ela, sentada em canto com os braços encolhidos em seus joelhos tentando se esconder dela mesma. Estava tão relutante que seus lábios amargos e tão insaciáveis por palavras não conseguiam se mexer depois de tanta humilhação. Seus olhos derramavam lúgubres e ácidas lágrimas e com elas vieram os soluços para completar a sua falta de esperança. O que poderia fazer? Levantar e continuar com a sua capa invisível ou ser ela mesma e carregar este fardo pelo resto de sua vida?
Ela apenas continuou parada. Volta e meia colocava a mão no rosto para ver se ela e seu lamentos eram reais, se suas lágrimas eram reais e se sua vida era real, mas infelizmente eram.
É fácil ser você mesmo? É fácil ser frágil demais, duro demais, insensível, sensível, amargo, doce, agridoce? 
Idealizamos quem queremos ser, mas nem sempre podemos ser o que planejamos. E, às vezes é mais fácil ser alguém do que ser nós mesmos.

maio 08, 2011

Enfaticada

Amor, aquele que enxergamos como se fosse o essencial para a vida e que hoje não passa de uma palavra vazia aos que tentam escrever sobre. Seria apenas um sentimento vazio ou tão cheio que não cabem em palavras?

Eram apenas dez da manhã quando abri a janela
sem esperança de encontrar algo novo
quando de repente vi ela,
aquela menina deslumbrante e me senti um tolo.
Não consegui parar de admirar seu olhar
nem seu jeito de caminhar,
era o ideal de menina
que eu buscava encontrar.

As palavras muitas vezes são mais significativas do que os sentimentos, elas podem preencher por mais vazio que esteja o nosso coração e nos confortar quando for preciso.
As palavras não são culpadas pelo que sentimos.Usamos-a, principalmente, para colocar a culpa no amor por não sabermos controlar nossos sentimentos. Elas são lúcidas e por mais dolorosas são verdadeiras, enxergo com as palavras aquilo que não enxergo com o coração, e além disso, elas compartilham o verbo chorar comigo.

A curiosidade matou o gato? Quem escreveu o poema-não-terminado-e-mal-feito sobre a menina dos seus sonhos voltou a encontrá-la toda noite durante longos anos enquanto dormia. Não é a toa que ela era a menina dos seus sonhos.

abril 19, 2011

Meu buquê de recordações

2010, Novembro 29.
São como flores, você as cuida e elas sempre morrem, mas são tão belas quando vivas… assim são os amigos. Eles não querem ir nem nós queremos que se vão, mas o tempo os tira de nossas vidas, deixando apenas rastros por esse caminho que chamamos de lembranças.
Lembranças, tão belas e doces em nossos pensamento fazendo-nos vibrar de alegria ou que nos atormentam.
Assim como existe a linha tênue entre o amor e o ódio, me parece plausível que exista entre a lembrança e a saudade. E o que é saudade? É apenas um sentimento bom para nos fazer lembrar de momentos com tal pessoa ou lugar e quando me perco nesses devaneios, sinto saudade de sentir saudade. Não menos importante, o notável orgulho e vaidade, que faz subir pela cabeça nos esquecendo de desculpar ou perdoar. Lembre-se que a amizade não é uma borracha na qual podemos apagar, nem menos uma folha na qual podemos rasgar ou amassar. E eu já ia me esquecendo, a amizade? Ela é apenas o sentimento mais duradouro que o amor, pois quando o amor acaba são aqueles buquês que vão nos consolar.

abril 14, 2011

Quer dizer que está muito frio

Suspirei
Caminhei
Tropecei
Suspirei outra vez.

Olhei em volta para atravessar a rua e desencantada ao ver que nada me impedia de parar, esperei até ter certeza de que aquele era o trajeto que eu gostaria de prosseguir. Voltei dois passos, cantarolei uma canção inventada e finalmente caminhei em direção ao tudo ou ao nada. Lá estava, me esperando com seus olhos de girassóis sem a emoção que antes percorria seu coração e apenas aquele vento gélido foi o que nos fez continuar para o que parecia ser uma saudação ensaiada.

Cinco, seis passos
Uma sala, e outra de jantar
Duas cadeiras e um café a nossa espera
Geleia, torta, bolo e biscoitos
E nada, absolutamente nada para conversar.

E o seu silêncio fez assim o de toda a eternidade, e meu coração parou ao ver que nada diria ou voltaria a ser como antes. Em seus olhos via-se claramente as pétalas caindo. O café amargo, os móveis velhos, a geleia sem cor, o bolo seco, os biscoitos chochos e a torta de maçã sem maçãs.
Quando percebi que estava tarde demais fui acordar de meus pensamentos. E o que aconteceu foi que o tempo passou e nem rastros foram deixados para trás, varreu-se todas as lembranças e sentimentos. A única coisa que permanecia intacta, era o vento. Esse continuava forte, leve e invisível a quem enxerga com os olhos.

Suspirei
Voltei
Desta vez não tropecei.

Porém, eu não precisava olhar ao atravessar a rua, pois ao ver que meu riso foi tomado, me senti como o vento em direção ao tudo ou ao nada.

março 25, 2011

Giz cor de lembrança

Recomendação: Giz by Legião Urbana.

Naquele enorme quadro negro chamado saudade escrevo desesperadamente as letras do teu nome, procurando uma palavra para o que defina dor. E quanto mais esqueço, mais lembro do que tento esquecer voltando a um ciclo indecifrável e violento para o meu coração. O tempo lá fora me diz que estou chorando por dentro, se é que pedras de mármore são afetadas por gotas da chuva. Ao invés de angústia, sinto-me apática e apenas um tic-tac dentro de mim espera por um despertar para a alegria que é estar ao seu lado.
Quem me dera dar ao luxo de estar dramatizando, quem me dera sair deste conto de fadas ilusório e ter um alazão a minha espera. E se eu quebrasse este quadro, teria que quebrar meu coração, e o giz, ah o giz, ele ficaria intacto mostrando a minha derrota.

março 06, 2011

A amizade custa apenas cinco reais e trinta e dois centavos

Enquanto caminhava, Eloise ficou encantada com o paralelepípedos que cobriam a rua Solais de Borboleta. Virava-se a todo instante para enxergar as velhas vitrines cobertas por suas promoções mesmo que as peças fossem perdendo suas cores conforme permaneciam lá. Eloise apenas não compreendia o que as moças da cidade viam naqueles vestidos caros e floridos sendo que o charme estava na simplicidade. O que muitos não viam, era que Eloise tinha uma sensibilidade para enxergar as coisas de outro modo. Um exemplo fora que enquanto as outras crianças corriam para a barraquinha de pipocas, Eloise estava admirando os paralelepípedos de uma rua que ficava ao centro da cidade, onde as pessoas corriam para pegar o trem na estação, onde velhos jogavam xadrez ocupados com sua concentração e onde crianças preferiam brincar com balanços e gangorras. Ela se perguntava quantas pegadas foram deixadas ali e seus motivos - pegadas que nem o tempo pôde apagar.
A mãe de Eloise, uma mulher de seus trinta e tantos anos, com um chapéu vermelho bordado chegou de suas compras na barraca do seu Jerônimo, um velhinho simpático e sem paciência para xadrez e essas coisas. Enquanto a mãe procurava as chaves do carro, Eloise admirava uma livraria no outro lado da rua com certa curiosidade, mas sabia que sua mãe tinha que chegar a tempo de preparar o almoço para seu pai, então ela teve de guardar a curiosidade a todo custo dentro de si, pois nada tinha a fazer.
Chegando em casa, Eloise devorou o que tinha na sacola trazida pela mãe e logo depois voltou a devorar, mas não comida, e sim, seus livros da escola. Enquanto estudava, ela não tirava a imagem daquela livraria e agora sua curiosidade começava a devorá-la também.
Ela foi até o escritório de seu pai tentar procurar algum livro que pudesse saciar a sua fome por algo novo, mas tudo o que encontrou foram livros de romance, enciclopédias e nada que lhe interessasse. Voltou para seu quarto com a decepção em seu coração e foi dormir tentando trocar a decepção por um pouco de esperança passageira.
No outro dia, ela e sua mãe voltaram à rua Solais de Borboleta para comprar presentes de natal, Eloise voltou a olhar a livraria com mais curiosidade do que no dia anterior, então entraram em uma loja ao lado da livraria onde havia decorações de todos os tipos. Enquanto a mãe de Eloise ficava encantada com tudo aquilo, não percebia que a filha estava encantada com algo ao lado da loja. Depois de comprarem tudo, saíram da loja e Eloise permaneceu imóvel ao ver a livraria tão de perto, quisera ela entrar antes de sua mãe dizer: ''Vamos para casa, Elô''.
A mãe, percebendo a tensão da filha resolveu mudar o trajeto do dia e entrar na livraria, o que fez com que coração de Eloise saltasse de alegria.
Começou uma busca pelo inalcançável aos seus tão pequenos olhos, até encontrar um livro simples de um escritor que ela mal conseguia pronunciar, o livro se chamava ''Um Sonho Pintado''. Seu coração acelerou e de repente paralisou quando sua mãe disse que podia levá-lo.
Ao mesmo tempo em que ia para o caixa pagar seu livro, ela olhava admirada para todos aqueles livros, todas aquelas histórias e tanta magnitude acrescentadas em páginas.
Chegando ao caixa o atendente disse: − Custa cinco reais e trinta e dois centavos.
Quando ele disse isso, Eloise teve a certeza de que não só estaria levando um livro para casa, mas um amigo para vida toda.

Dedico este texto inteiramente ao Maicon Feijó, do qual me inspirou para criá-lo.